"Caro Amigo António,
Faço votos para que ao receber esta minha carta, a mesma o
vá encontrar de boa saúde em companhia da restante
família, que nós os três por cá vamos
bem na graça de Deus.
Ainda que por poucas horas, foi um privilégio, para mim,
tê-lo conhecido a si e ao seu amigo Croquete.
Senti-me honrado ter podido conversar consigo sobre vários
assuntos, sobre tudo e sobre nada, sobre a sua vida pessoal e
familiar, sobre a sua vida profissional.
Para mim, o Croquete não é um palhaço como os
outros, e que me perdoem esses outros. Para mim o Croquete é
um palhaço que educa, um palhaço que instrui.
Não é aquele palhaço que faz rir as
crianças a troco de um tropeção ou de uma
queda premeditada,
Não é aquele palhaço que diz uma piada
fácil,
Não é aquele palhaço que ao acabar o
espectáculo, esquece-se das crianças presentes e
acabada “palhaçada”.
É difícil, no dia-a-dia em que vivemos ver
alguém, que apesar dos seus problemas, dúvidas,
anseios, medos, alegrias e sonhos, ficar fechado num camarim
durante 1 ou 2 horas e dar o seu lugar a outra pessoa para ir ao
palco dar um pouco de alegria e felicidade a quem está
presente, sobretudo crianças. Deve ser difícil ao
António ficar fechado e deixar ir por si o Croquete. Apesar
de, por vezes a sociedade não o reconhecer, não
são muitos que fazem aquilo que faz, e não me refiro
às pinturas, à roupa, aos adereços.
Refiro-me ao facto de ser capaz de dar sem pedir nada em
troca.
Refiro-me ao facto de, apesar de estar a chover, ficar no palco,
como se estivesse numa esplanada a beber uma água mineral
num dia de Verão.
Refiro-me ao facto de apesar de faltarem adereços,
improvisá-los do nada.
Não, não estou a pô-lo num pedestal. Para
pôr num pedestal já temos santos que chegue.
Simplesmente estou a escrever aquilo que penso. Porquê?
Porque...
Sabes Croquete, o que mais me tocou e que mais de deu que pensar,
foi teres-me dito que um dia quando estavas a fazer um
espectáculo numa escola, uma das crianças ter tido um
acidente com alguma gravidade, e ter ido para o Hospital, sem se
saber se escapava ou não. Bem, não foi bem isso, foi
pelo facto de apesar de seres brincalhão, a criança
que já fomos e dificilmente voltaremos a ser, de fazeres
sonhar as crianças com um mundo melhor, de fazeres sorrir a
quem por vezes só apetece chorar, teres tido a coragem de
teres ido ao camarim buscar o António e, os dois de
mão dada, terem rezado, ali, ao pé das
crianças pelas melhoras daquela que minutos antes estava ali
para te ver.
Nos dias que correm, são poucos os “Croquetes”
que dão a mão aos
“Antónios”,
São poucos aqueles que tentam ajudar o próximo,
São poucos aqueles que agasalham os que têm
frio,
São poucos aqueles que dão de comer a quem tem
fome,
São poucos aqueles que dão guarida a quem não
tem um tecto.
É triste saber e ver que os “Croquetes” preferem
continuar a ser “Croquetes”, ao invés de darem
as mãos aos “Antónios” e, juntos
fazerem
Um mundo melhor,
Um mundo onde aja Paz,
Um mundo onde aja Amor,
Um mundo onde aja Compreensão.
Sim, porque são muito poucas aquelas pessoas que não
usam “pinturas” e mostram aquilo que realmente
são.
Eu sei que nesta altura o teu amigo António deve estar a rir
disto que te estou a dizer, deve estar a pensar que isso é
uma utopia. É capaz de ter razão, quem sabe, mas
também não será uma utopia alguém
querer ser duas pessoas ao mesmo tempo, não será uma
utopia alguém ser António numa altura e noutra altura
ser o Croquete. É bem possível, mas apesar de ser uma
utopia, o facto é que é real, e melhor que isso,
resulta. Então será que a minha utopia não
poderá ser real e resultar?
Sabes Croquete, já deves estar farto de ler esta minha carta
que mais parece uma aula de moral e bons costumes, mas por vezes
tenho estas fraquezas, por vezes penso que consigo mudar o mundo,
por vezes penso que amanhã tudo de mau e negativo vai acabar
e, dar lugar a tudo de bom e positivo, por vezes penso...
Olha Croquete, por agora é só. Espero que não
tenhas ficado chateado ou ofendido com alguma coisa que te tenha
dito ou feito durante o tempo que estiveste nas festas em que eu
era um dos responsáveis. Espero que tenhas gostado deste
pedaço de verde rodeado de azul.
Ah! Já me ia esquecendo, dá um abraço por
nós ao António e restante família, e já
agora, vai dando noticias e volta sempre que quiseres.
Um abraço dos três estarolas,"